quarta-feira, 9 de maio de 2012

INSTITUTOS SECULARES - BREVE HISTÓRIA


1 -  BREVE HISTÓRIA DOS INSTITUTOS SECULARES

"Instituto Secular é o instituto de vida consagrada, em que os fieis, vivendo no século, se esforçam por atingir a perfeição da caridade e por contribuir, sobretudo a partir de dentro, para a santificação do mundo" (Cânon 710).

É assim que são definidos os Institutos Seculares no novo Código de Direito Canónico. O seu reconhecimento oficial aconteceu depois de grandes reservas da parte dos Bispos.  As dúvidas foram-se esclarecendo, de tal sorte que o Papa Pio XII, atento ao movimento crescente de pessoas que desejavam viver uma nova vocação e apoiando-se no trabalho infatigável do futuro Papa Paulo VI, Mons. Giovanni Montini, e do Cardeal Larraona,  promulgou a Constituição Apostólica "Provida Mater Ecclesia" (PME)  no dia 2 de Fevereiro de 1947. Este dia assinala, assim, um “parto” difícil, por que muitos haviam sonhado e trabalhado. É por isso, com muito regozijo, que recebem esta boa notícia. É um ponto de chegada, este reconhecimento oficial dos Institutos Seculares, mas é também um ponto de partida. 

1.1.  Reconhecimento dos Institutos Seculares (I.S.)

 Com a PME nasce um novo modo de consagração. Os motivos para a sua aprovação estão expressos na mesma Constituição: 
Deram provas do seu valor; mostraram suficientemente, e cada vez mais, pelas suas obras e pelos factos que, graças à escolha prudente e severa dos seus membros, à sua formação cuidadosa suficientemente demorada, a uma regra de vida bem adaptada, ao mesmo tempo firme e maleável, se pode obter, com toda a certeza, mesmo no mundo, por um chamamento especial de Deus e com a ajuda da sua graça, uma consagração de si ao Senhor, assaz estrita e eficaz, não somente interior mas exterior (...) um utilíssimo instrumento de presença e de apostolado(...).  Levar autenticamente, em todo o tempo e em todo o lugar, uma vida de perfeição; abraçá-la em certos casos em que a vida religiosa canónica é impossível ou pouco adaptada; recristianizar intensamente as famílias, as profissões, a sociedade, graças ao contacto imediato e quotidiano duma vida perfeita e totalmente consagrada à santificação; exercer o apostolado sob múltiplas formas e exercer ministérios que o lugar, o tempo e as circunstâncias interdizem ou tornam impossíveis aos sacerdotes e aos religiosos (PME, in Institutos Seculares,1984, p. 17).

1. 2. Evolução Histórico – Teológica dos Institutos Seculares

A História dos IS, inserida na História da Igreja, não se faz em compartimentos estanques, nem aos saltos isolados. A clareza, a precisão de linguagem e o aprofundamento dos conceitos,secularidade, consagração e apostolado, espelho de toda uma reflexão feita e experiência vivenciada ao longo dos tempos, que encontramos no novo CDC, foi evoluindo progressivamente. Há porém, nesta evolução momentos salientes que são mais relevantes.
Depois  dos diferentes encontros dos membros dos Institutos seculares, nos anos 60 realizou-se o Concílio Vaticano II, momento chave para a compreensão e ratificação dos Institutos Seculares. Esta nova vocação é evocada em dois Documentos do Vaticano II - os Decretos: Perfectae Caritatis, nº 11(PC) e Ad Gentes nº 40 (AG). Embora muito sucintamente, estes Decretos manifestam a confirmação da Igreja, reunida em Concílio.
 Paulo VI afirma haver uma profunda e providencial coincidência entre o carisma dos IS e as directrizes mais importantes do Concílio, como seja: a presença da Igreja no mundo. De facto a “Igreja faz parte do mundo e é chamada a servi-lo, ser a alma e o fermento do mundo, porque tem a missão de o santificar, de o consagrar e fazer incidir sobre ele os valores supremos da justiça, do amor e da paz” . Diz ainda Paulo  VI: Sois o laboratório experimental onde a Igreja se revê na sua relação com o mundo...  Sois alpinistas do Espírito. A vossa vocação é bela e exigente".

INTELIGENTE COMO GATO

CONSAGRAÇÃO SECULAR: UMA ESPERANÇA NO MUNDO DE HOJE


Na Igreja ainda não foi suficientemente aprofundada a importância da vocação consagrada na secularidade, com o seu valor e o seu dom extraordinário para a Igreja e para o mundo. Num mundo globalizado e cada vez mais distante de Deus, o fermento da consagração na secularidade torna-se cada vez mais necessário. Neste momento da história, a Vocação Consagrada é um sinal profético para a Igreja e para todos os homens.
A Vocação Secular Consagrada possui uma ressonância extraordinária porque está inserida no coração da história e é ali, a partir de dentro, que renova o mundo.
O específico dos consagrados seculares é o de recompor a fractura criada entre o homem e Deus, entre fé e vida, fé e cultura, permitindo ao homem ser plenamente ele próprio sem se separar de Deus. A função dos consagrados seculares é viver profundamente em si mesmos a síntese extraordinária de uma plena inserção no mundo e de uma plena consagração a Deus. Os consagrados seculares são chamados a serem fermento que age, com o apostolado activo e com a sua presença nos vários contextos humanos: industrial, cultural, político, económico… onde quer que o homem viva. E, aí, “Fazer de Cristo o coração do mundo” vivendo a radicalidade evangélica na pobreza como educação a um espírito de sobriedade; na castidade como liberdade interior para estar totalmente ao serviço de Deus; na obediência como busca constante da Vontade de Deus.
Os Institutos Seculares são chamados a viver uma das grandes urgências do nosso tempo, redescobrir e reviver o verdadeiro amor, amor ágape, o amor de Deus que é capaz de transformar a nossa existência e fazer de cada um de nós um dom para os outros.
Pertence aos leigos, de modo mais específico aos leigos consagrados a cristianização e humanização das realidades temporais. A nossa presença no meio do mundo não é algo fictício ou complementar, nem uma invasão de um espaço destinado a outros. Pertence-nos a nós por vocação própria e é-nos outorgado pela nossa consagração. Somos Igreja mas não deixamos de pertencer ao mundo. Este mundo que é o nosso mundo, que é o mundo onde deve ser vivida e concretizada a nossa consagração secular.
João Paulo II em Lisboa recordava que se acontecer que a Igreja não esteja presente em algum espaço da actividade humana é porque nós, os leigos, não estamos lá. Somos chamados a participar na vida pública, a transformar o mundo ao nosso redor, o qual se repercute em toda a sociedade.
Mas, para isso duas convicções básicas são necessárias:
Primeira: Possuímos a verdade sobre o homem. Esta foi-nos manifestada em Jesus Cristo e é transmitida e guardada pela Igreja. Não é pura complacência. É um dom que recebemos e que, distante de nos vangloriarmos é uma responsabilidade. Nós cremos que o Evangelho pode iluminar qualquer situação humana, das mais prosaicas às mais complexas.
Segunda: A eficácia de uma minoria. O mundo é dirigido por minorias económicas, políticas religiosas…Olhemos para a nossa realidade e observemos que esta se encontra em poucas mãos.
A história dos primeiros cristãos é instrutiva. Atreveram-se a enfrentar uma civilização pagã e conseguiram transformá-la, não sem grandes sacrifícios.
Diante do vasto e complexo panorama nacional e do campo de actuação que se apresenta diante de nós, convém recordar o que “devemos pensar globalmente e actuar localmente”. Ou em palavras de Santa Teresa de Jesus: “Determinei-me a fazer o pouco que podia”. Ou ainda dito de outro modo: “nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos reflexivos e comprometidos pode mudar o mundo” (Margaret Mead).
O Pe Manuel Antunes, Fundador do ISSF dizia-nos: "Como consagradas, não podemos ser indiferentes a tantas almas que se perdem, não podemos ser moles, devemos ser activas, duras, exigentes na nossa vocação. Nosso Senhor julga-nos segundo as graças que nos dá"
Na audiência aos superiores dos Institutos de Vida Consagrada, de 22 de Maio de 2006 o Papa Bento XVI lança este desafio: “são necessárias opções destemidas, a nível pessoal e comunitário, para redescobrir e mostrar a beleza do seguimento de Cristo na vida consagrada. Os consagrados e as consagradas possuem hoje a tarefa de ser testemunhas da transfiguradora presença de Deus no mundo, cada vez mais desorientado e confuso”.
Ser consagrado é “pertencer totalmente a Cristo”. Pertencer ou ser de Cristo; por cinco vezes repetiu o Papa esta expressão. Esta é a essência da vida consagrada, esta é a primazia do ser sobre o fazer, este é o grande paradoxo que o mundo não entende, e que nós mesmos às vezes deixamos de entender quando permitimos que sejamos levados pelo afã do número, da eficácia.
As palavras do Santo Padre são reveladoras: “Pertencer ao Senhor: esta é a missão dos homens e mulheres que optaram por seguir a Cristo casto, pobre e obediente, para que o mundo creia e se salve”
Na saudação ao Santo Padre a Presidente da CMIS (Comissão Mundial dos Institutos Seculares) Euva Kusz dizia: “Não temos poder político, social ou pastoral, vivemos em diáspora, não somos numerosos, mas somos como o sal e o fermento da terra, que podem paulatinamente mudar e transformar o mundo a partir do interior. Nisto cremos e por isto nos esforçamos em viver…”
Que assim seja.

Estrela de Noronha